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12/04/10

Resenha crítica da obra "O Processo" de Franz Kafka

O Advogado, boêmio, Franz Kafka é uma figura única na literatura mundial. Kafka nasceu em Praga, hoje capital da República Tcheca, em 03 de Julho de 1883 e cresceu sob a influência das culturas judaica, tcheca e alemã. Como já dito foi advogado, mas, a vida jurídica o frustrou profundamente, fazendo-o desistir da carreira e ir trabalhar em outros ramos. Pode-se dizer que foi um homem sofrido, até mais, amargurado, e grande parte dessa amargura deve-se a seu pai, Hermann Kafka, comerciante judeu que é considerado, inclusive, por Franz Kafka em seu livro Carta ao Pai, um tirano, autoritário e egoísta, que, também, o impediu de casar com sua amada, Julie.

A vida de Franz não foi fúlgida, tampouco plácida; Sua infância e adolescência foram marcadas pela tirania de seu pai o que, data vênia, entendo que foi o que lapidou as suas características mais marcantes: a simbologia, o absurdo e a acidez usada em seus escritos. Devemos ter por fundamento balizador ao analisar as obras de Kafka o fato de que toda sua obra é consequência de sua relação com seu pai. Todo seu sofrimento está misturado às suas palavras de forma homogênea.

Na obra “O Processo” Kafka descreve uma narrativa cheia mistério, fazendo com que o leitor mergulhe em um contexto que parece fugir da racionalidade e lógica, que é uma das características mais marcantes de suas obras. Nesta obra ele relata a história de Josef K., bancário que ao acordar no dia de seu aniversário de 30 anos se vê detido por pessoas que não conhece, a fim de responder um processo judicial do qual não sabe o motivo, movido por uma justiça ilógica, corrupta e burocrática. Embora detido, fica autorizado a viver sua vida normalmente, exercendo suas atividades diárias como se nada estivesse acontecendo, somente tendo que comparecer esporadicamente a um Tribunal que chega a ser onírico de tão inconcebível. Balizo-me nas palavras de Luiz Costa Lima:

Se, ao invés, de tudo se põe em questão, a fonte questionadora mesma se torna socialmente intolerável, porque tudo se desestabiliza. Mas é exatamente isso o que faz Kafka. Com ele, o objeto ficcional não permite o alívio de dizer-se: que bom, afinal o mundo não é assim; ao menos, não é só isso. Ou em termos concretos: afinal, fora d’O Processo as leis continuam a ser respeitadas e a polícia não pode bater à minha porta na hora que bem entenda. N’O Processo a ficção básica é a do Estado de Direito. (LIMA C. L., Limites da Voz – KAFKA. RJ: Rocco, 1993, p.163).

Nesse fantástico e irritante (sim, de tão absurdo irrita e apaixona) cenário kafkiano o leitor não pode se deixar levar singelamente pelas aparências, pois, sempre que quer relatar o coerente Kafka utiliza-se do absurdo, e sempre que quer narrar o impensável fala de maneira lógica, confundindo. Além de que nada é o que mais simples possa ser, haja vista que será sempre algo inerente à sua vivência e seu sofrimento, sendo intrínseco aos seus sentimentos mais profundos. É neste ponto que entendo que está a grande qualidade de Kafka, a capacidade de poder sentir o anseio social e entrelaçá-lo com as mais absurdas situações, justificando-os.

O julgamento de Josef K prossegue sem que ele sequer tenha meios de indagar sobre tudo o que acontece, que o tolhe, de maneira que lhe resta suportar uma culpa que desconhece, observando a sua defesa ser desgastada aos poucos, embora lhe seja inerente um resquício de uma mórbida esperança.

O próprio Kafka inicia sua obra supondo que “alguém deveria ter caluniado Josef K.”, minorando, desde o começo, as nossas possibilidades de entender o seu crime, pois, provavelmente tratava-se de uma calúnia, balizando-se na integridade moral da qual usufruía K. Sendo assim, como se defender de algo que se tem por brincadeira, ou que no máximo seja má fé, desconhecendo o crime, o acusador, as testemunhas, e todos os outros possíveis interessados no caso concreto? Tal fato demonstra a opinião de Kafka sobre a vida social que não perdoa os mais fracos e pertencentes a minorias, tolhendo-os os direitos, mesmo que numa invisível cela, conhecida eufemisticamente por prisão social.

Durante seu processo alguns se manifestam a favor de Josef, mas, são gritos vãos, como os de alguns que estavam no tribunal de acareação que inutilmente bradam “Bravo!”, sem sucesso. Estes são os que estão do nosso lado sem, contudo, alcançar êxito em sua tentativa de auxílio, pois são fracos, menores, não combatendo aqueles que detêm o poder. Outro ponto de máxima crítica de Kafka ocorre no capítulo V, O Açoitador, no qual narra o açoitamento de alguns rapazes que, subjugados, nada podem fazer para defender-se, em uma descarada censura ao abuso de autoridade de muitos que à época detinham (outros, hoje, detém) tal poder.

Nas idas e vindas de Josef durante sua via crucis ele se depara com algumas mulheres as quais sempre lhe atraem e são atraídas, como a senhorita Bürstner, a mulher do porteiro do tribunal e Leni (a enfermeira), as quais o fazem pensar “Estou conseguindo ajuda por parte das mulheres” (KAFKA, p. 78) o que no meu ver revela uma fundada preocupação por parte de Kafka em mencionar os casos amorosos de seu personagem. Ora em meio a tanta turbulência o que unicamente distraia Josef eram as mulheres, para Kafka, talvez uma alusão ao seu amor juvenil, quase mitigado por seu pai, mas, para Josef é um meio de não perder a lucidez, manter-se vivo, envolvido socialmente, não emudecer perante o que o processo lhe ofusca.

Em determinado ponto de sua obra Kafka menciona a preocupação de Josef ao ouvir do pintor Titorelli que provavelmente era inocente, pois, já lhe pesava tal possibilidade e o seu inverso. Pensar nisso deixava Josef inquieto (KAFKA, p. 108). É ofuscante ao homem ter de conviver com a dúvida, ainda mais aquela emanada da incerteza que se pode ter para com a justiça. Kafka ressalta bem isso em toda sua obra ao questionar direta e indiretamente o leitor ‘onde está a justiça’: “Onde estava o juiz que ele nunca tinha visto? Onde estava o alto tribunal que ele nunca alcançara? Levantou a mão e estendeu os dedos.” (KAFKA, p. 163). Nota-se uma grande revolta demonstrada nas palavras de Kafka, ao erguer sua mão aos céus procurando algo em que se salvar, buscando em vão tecer conclusões de o que ocorreu de errado, de onde está seu algoz. Ou seja, tendo suas forças diminuídas o homem simples não tem, sequer, a chance de ser reconhecido como socialmente ativo, politicamente funcional, inteligentemente questionável. São-lhe tolhidas, discretamente, pela sociedade, suas funções sociais mais banais, tais como o direito a voz ativa.

Kafka faz duras críticas ao sistema judicial de forma descarada, fundando-as em sua experiência jurídica e num mundo estranho, complexo, onde a desilusão de um homem com a justiça faz-lhe deixar-se levar ao matadouro, comparando-se a um cão, morrendo envergonhado por algo que desconhecia. É fácil concordar com Kafka ao analisarmos a nossa atual morosidade jurídica onde se mensura o tempo processual em anos, quiçá, décadas. Não obstante não se deve tomar toda sua obra por idêntica à realidade, pois, seria de grande injustiça com os que promovem a celeridade judicial.

Entendo que Kafka era ao mesmo tempo brilhante e pessimista (sim, pessimista no sentido de amargurado, desestimulado); Suas palavras levam o leitor a ver o mundo de maneira mais precavida, a famosa visão kafkiana.

Voltando nossos olhos para uma análise mais profunda da obra ‘O Processo’ podemos notar uma característica principal que emana como perfume de cada palavra usada por Kafka, qual seja sua repugnância ante a desintegração da personalidade humana ante o totalitarismo e impessoalismo estatal, que com sua burocracia, autoritarismo, ditatorialismo, ou mesmo desprezo, o faz com certa facilidade, quase naturalmente. Além, claro, da corrupção instaurada e impregnada no meio:

“(...) não há dúvida nenhuma de que por detrás de todas as aparências desta justiça e, no meu caso, para lá da prisão e do interrogatório de hoje, se encontra uma grande organização. Uma organização que não utiliza unicamente guardas venais, inspetores e juízes de instrução idiotas, indigitados apenas para o mais simples dos casos, mas que também sustenta juízes de elevada categoria, servidos por inúmeros e inevitáveis criados, escribas, polícias e outros auxiliares, talvez mesmo carrascos, emprego esta palavra sem qualquer receio. E, meus senhores, qual é o sentido desta grande organização? Não é outro senão o de prender pessoas inocentes e de contra elas instruir um processo absurdo e, na maior parte das vezes, como no meu caso, improfícuo. Como é que numa conjuntura tão absurda se pode evitar que os funcionários fiquem corruptos? E impossível; nem sequer o mais eminente juiz conseguiria escapar à ação dissolvente do meio. É por isso que os guardas procuram roubar as roupas aos presos, é por isso que os inspetores se introduzem abusivamente nas casas de cada um, é por isso que se prefere aviltar os inocentes em frente de assembléias inteiras a interrogá-los. Os guardas não falaram senão em depósitos para os quais se levam os bens dos presos. Gostaria bastante de ver esses depósitos onde os haveres que os presos adquiriram à força de tanto trabalho apodrecem, caso não sejam roubados por funcionários sem escrúpulos.” (KAFKA, p. 35) [grifo nosso].

Em segundo plano, o seu desconforto para com a sociedade que no seu ver é, na sua maioria, formada de pessoas sem humanidade, sem altruísmo. Vivem suas vidas mecanicamente sem se importar com a dor alheia e, sim, sempre rotulando e estereotipando. Em várias passagens de sua obra vemos que o fato de o personagem Josef estar sendo processado é motivo para receio, palavras repensadas, por parte de seus interlocutores. O fato de ele ser um possível condenado assombra a muitos. Difícil não comparar com a realidade, onde aqueles que sofrem o peso da lei e o furor do Estado, após tanto, não usufruem da mesma dignidade de outrora, pelo contrário, ex-detentos e até mesmo os que não chegaram a ser condenados, mas que por motivo de publicidade sofreram grande dano moral, nunca mais em suas vidas terão seus “nomes limpos”, haja vista o mal que ronda a sociedade moderna que não perdoa os seus que, por motivos vários, distorcem-se da retidão.

Outro aspecto secundário, contudo não menos importante, é a mistificada prisão civil bem retratada por Kafka em sua obra. A prisão civil kafkiana é mais ou menos o ingrediente que dá um toque de suspense às suas obras, são aqueles momentos nos quais seus personagens se vêem tolhidos de direitos subjetivos meramente por suas consciências. Em vários momentos da obra “O Processo” Josef se depara com situações que necessitariam de uma atitude menos cautelosa ou mais impetuosa, porém, acaba agindo de forma indolente, apática, preguiçosa, tudo por causa de sua consciência “ferida” além da dor de não conseguir estabelecer qual a sua culpa real. Trata-se de um jogo psicológico que vai definhando Josef, até que suas forças já nem podem ser mais mensuradas, e deixa-se matar, sem lutar e sem saber o porquê, nem por quem. Culpado por desconhecer seu crime. Ou seja, do princípio ao fim Josef comporta-se como se culpado fosse, argüindo quem o acusa e não a causa, pois, a posição em que se encontra, acusado, começa a lhe remover a lucidez, então lhe parece mais lógico saber quem é o acusador para então entender o seu crime. Um homem não vive sem a justificação de seus atos, se esta não existe procura-se o Estado e se este se esconde perde-se o chão, assim, não se pode entender a causa de tanta angústia, como no caso de Josef. Essa invisibilidade estatal é chamada de “incomunicabilidade”: o homem abaixo e o Estado (autoridade) acima e inalcançável.

A obra “O Processo” é inesgotável em sua análise, aqui me atenho a algumas das que mais me impressionaram, trata-se de uma obra que não perde sua contemporaneidade, sendo moderníssima mesmo hoje. As críticas de Kafka, embora oníricas, são bastante incisivas, vindo a se paralelizar com muitas situações atuais. Na narração de Kafka o capelão que dialoga com Josef tenta explicar-lhe por uma parábola os caminhos da Lei:

“Diante da Lei, fica um guarda. Um homem, vindo do interior, pede para entrar. Mas o guarda não admite. ‘- Pode ele entrar mais tarde?’. ‘-É possível’, diz o guarda. O homem tenta olhar para dentro. Aprendeu que a Lei deveria ser acessível a todos. ‘-Não tente entrar sem a minha permissão! Eu sou poderoso! E sou apenas o mais subalterno de todos os guardas! A cada sala, a cada porta, há um guarda mais poderoso que o anterior’. Com a permissão do guarda ele senta ao lado da porta e espera. Por anos ele espera. Ele vende tudo o que tem pensando subornar o guarda. Este sempre aceita o que o homem lhe dá para que ele não sinta que não tentou. Fazendo vigília por anos, o homem conhece até as pulgas da gola do guarda. Ficando gagá com a idade, pede às pulgas que convençam o guarda a permitir a entrada. Sua visão é curta, mas ele percebe um brilho infinito ao redor da porta da lei. E agora, antes de morrer, toda sua experiência se reduz a uma pergunta que ele nunca fez. Ele chama o guarda. E o guarda responde: ‘-Você não se cansa, o que quer agora?’ ‘- Todo homem luta pela Lei’. Então, por que nesses anos todos ninguém pediu a proteção da Lei?’ Sua audição não é boa, e o guarda grita em seu ouvido: ‘-Só você poderia entrar. Ninguém mais. Essa porta foi feita só para você. E, agora, eu vou fechá-la’. (KAFKA, p. 152)

Ora, o homem simples não prevê as complicações da Lei, tem-se por verdade absoluta que ela existe para nos ajudar, para tanto deve ser de fácil entendimento. O que ocorre largamente atualmente é a falta de informação jurídica para a maioria (“homens simples”), o que acarreta vasta injustiça. O porteiro não eternizou a impossibilidade de o homem do campo entrar à Lei, mas, naquele momento o impediu, a má interpretação do dito o fez esperar por toda sua vida a chance de conhecer a Lei.

Kafka deixa-nos uma obra-prima, não só pela qualidade única de sua técnica, mas, também pela maravilhosa gama de possibilidades de análises de seu mundo. “O Processo” é tempestivo, atual, entendo que mais, eterno. Embora sua leitura seja de certo modo inquietante, o leitor desfruta de uma obra caracterizada pelo absurdo, que o leva à ira com o personagem, mas, à reflexão com o contexto. Como já dito supra “O Processo” faz o leitor ficar mais alarmado para com a sociedade e o aparelho jurídico, não duvidando de seus fundamentos, advindos do pós-iluminismo, porém, do egocentrismo humano, do poder inebriante, pois, criação não se confunde com criador, se o sistema é falho lho é por causa do homem.

12 comentários:

  1. Desvendou maravilhosamente o universo de "O Processo!

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    1. Obrigado... Este universo é esplêndido, não?...

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  2. ótimo desfecho meus parabéns!

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  3. Parabéns, Fabio! É uma obra fascinante e o teu texto está muito bom.

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  4. Parabéns pela resenha! Faz um ótimo entendimento do genial Franz Kafka.

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  5. Muito boa resenha, usarei de base em meu trabalho da faculdade, que é uma resenha crítica do livro. Parabéns e sucesso.

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  6. Melhor resenha que li sobre esta obra. Parabéns!

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